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(Rio de Janeiro) - "Não começou
ontem. Há algum tempo, a saúde tem
merecido especial atenção dos governantes
porque a capacidade de gerar saúde é
determinante para a avaliação do desempenho
de um governo. As sociedades mais organizadas, sofisticadas,
urbanizadas, querem viver mais e melhor. Então,
progressivamente, o que vai garantir a um governo
o apoio popular não é apenas a sua
capacidade de gerar riquezas, emprego e renda, mas
principalmente de produzir saúde, manter
a população saudável".
Estas são palavras da médica Mirta
Roses Periago, Diretora da Organização
Panamericana de Saúde (Opas), durante o 11º
Congresso Mundial de Saúde Pública
e 8º Congresso Brasileiros de Saúde
Coletiva, realizados pela Associação
Brasileira de Pós-Graduação
em Saúde Coletiva (Abrasco), de 21 a 25 de
agosto, no Rio de Janeiro.
Nesta entrevista exclusiva à
Assessoria de Comunicação da Abrasco,
Mirta Roses, primeira mulher a dirigir a Opas desde
a sua criação, há 100 anos,
faz um balanço sobre o acesso universal à
saúde frente à globalização,
a contribuição da bioética
e o desafio da educação no contexto
da saúde pública. Acompanhe.
O acesso da população
à saúde está entre os avanços
desfrutados no século 21?
Mirta Roses - Apesar dos avanços, ainda está
longe a concretização da “saúde
para todos”. A exclusão se dá
por múltiplas barreiras: a primeira é
a cultural, com pessoas que ainda têm conceitos
e crenças que as distanciam da vinculação
com serviços de saúde; Há as
barreiras sociais: a pobreza, a discriminação,
o desemprego, os níveis de educação;
e, ainda, as barreiras geográficas, apesar
de 80% da população estar concentrada
em área urbana.
Então os problemas
de acesso à saúde não são
“privilégio” dos países
pobres?
Mirta Roses - Não. Porque os países
que passaram pela reforma sanitária têm
algum mecanismo para atender às populações
muito pobres. O maior problema está na área
do trabalhador informal, que tem uma renda que não
o qualifica para o acesso à segurança
ou ao comércio formal. Na América
Latina e Caribe são quase 100 milhões
de pessoas nesta situação. Nos EUA,
eles representam 40 milhões habitantes, que
inclusive não têm seguro de saúde
e vivem num país que não oferece atendimento
público. O que acontece, então? Morrem!
E existem também as barreiras organizacionais:
os serviços não têm horário
apropriado para a população, os profissionais
não estão preparados para atender.
Quando tem pessoal, não tem medicamentos.
Quando os têm, não há equipamentos
ou estão quebrados.
Em países desenvolvidos, como o Canadá,
poucas pessoas ficam sem acesso à saúde,
mas há importantes barreiras geográficas
a serem vencidas.
Mesmo assim, podemos dizer que a saúde
é uma das áreas que mais se desenvolveu
nos últimos anos?
Mirta Roses - O setor de saúde se desenvolveu
mais que os outros. Uma multidão de fatores
contribuiu para isso. A expectativa de vida, hoje,
na América do Sul está em torno dos
70 anos. O ganho nas duas últimas décadas
foi de seis anos, apesar dos problemas econômicos,
políticos e sociais. Claro que a Ciência
e a Tecnologia têm avançado muito na
aplicação à saúde, com
o surgimento de novos medicamentos e equipamentos,
vacinação, qualidade dos alimentos
e da água. Mas foi a organização,
a tomada de decisão para conseguir saúde
para todos, e a estratégia da atenção
primária de 1977, que tornaram o setor capaz
para aproveitar este avanço.
Hoje, alguns estados democráticos
e até superpotências como os EUA não
são capazes de prover saúde pública
de qualidade aos seus cidadãos. Por quê?
Mirta Roses - A valorização dos Direitos
Humanos, em muitos países, se deu, principalmente,
pelos direitos cívicos e políticos.
O processo democrático gera frustração
na população que não sente
garantidos os seus direitos sociais, entre os quais
a saúde, que é um dos mais importantes.
A população, principalmente nas camadas
mais pobres, acha que com a democracia não
se come, não se vive. E, se um povo conquista
os direitos políticos e civis, mas não
alcança seus direitos básicos sociais,
o país corre o risco de perder a governabilidade.
E o papel da bioética
no processo de desenvolvimento?
Mirta Roses - A bioética é uma disciplina
novíssima, com 30 anos de desenvolvimento
teórico, e é um instrumento poderoso
para se alcançar novos acordos sociais. A
sociedade tem de conviver permanentemente com as
novas tecnologias, com o avanço da ciência
e do conhecimento, e tem que reformular constantemente
esses acordos sociais. O quanto queremos ter de
saúde? O quanto queremos viver? O quanto
estamos dispostos a nos colocar como grupo ou como
indivíduos? A bioética trouxe um instrumento
de diálogo onde se podem colocar as perspectivas,
os interesses e os conhecimentos que permitem passar
à outra face do contrato social.
Agenda da saúde pública
permanece inconclusa no Brasil. Como avançar?
Mirta Roses - Esta é uma agenda que está
sem terminar e que é impostergável!
Não precisa de novos conhecimentos, apenas
da decisão política de aplicá-la.
Há falta de interesse político. Os
novos desafios são um chamado para o trabalho
coletivo entre os países, considerando as
forças da globalização.
Concorda que os gastos com
saúde devem ser considerados investimentos?
Mirta Roses - A Opas tem um trabalho importante,
inclusive quando foi lançada a Comissão
Global de Macroeconomia e Saúde, para mostrar
que o crescimento econômico não vai
trazer saúde automaticamente. Apesar de os
ricos serem mais saudáveis que os pobres,
e a pobreza não trazer enfermidades automaticamente,
há países pobres que investem bem,
como Chile, Cuba, Costa Rica. Não são
países ricos, mas têm melhores indicadores
de saúde do que outros mais ricos. E há
países relativamente ricos, como Argentina
e Colômbia, que poderiam ter saúde
muito melhor do que têm.
Então não há
uma relação automática entre
o nível econômico e o nível
de saúde de uma sociedade?
Mirta Roses - Sabemos que quando a saúde
está mal, trata-se de um fator de pobreza
ou de empobrecimento. A Opas, por meio deste trabalho
de relacionar saúde com economia e com produtividade
e capacidades humanas, tem demonstrado que esse
é um investimento de grande impacto sobre
outros setores. A saúde é também
um setor industrial, uma importante fonte de empregos
e um instrumento fundamental para que as pessoas
possam estudar, trabalhar, relacionar-se, viajar,
desenvolver-se culturalmente.
Nos dias atuais, como os
profissionais de saúde estão sendo
preparados?
Mirta Roses - Temos problemas sérios de desequilíbrio
em Recursos Humanos. Há muitas escolas formadoras,
uma perda grande de qualidade, sem falar na má
distribuição dos profissionais (80%
ficam nas capitais e áreas urbanas). O pessoal
não constitui a equipe básica: quando
tem médico, não tem enfermeiro, não
tem laboratório, não tem radiologista.
A efetividade do trabalho é baixa, porque
não se formam equipes. Este é um problema
fundamental, já que não temos uma
compatibilidade entre as necessidades da população
e o perfil em quantidade e qualidade do pessoal
de saúde. Para trabalhar na saúde
é necessário ter consciência
e postura éticas. É um serviço
social. Não se pode furtar de fazer um atendimento
a quem necessita, porque o assunto de saúde
é a vida!
Redação
final: Simone Beja (SB Comunicação)
Fotos: focusfotos.com
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